quinta-feira, 13 de março de 2008

UM BOLO PARA SER ENTENDIDO

Para que serve o Bolsa Família? Para melhorar a qualidade de vida dos pobres. Na hora de comer, basicamente. Mas isso foi bem no começo. Agora, os recursos do programa também ajudam a comprar eletrodomésticos e móveis a prazo, como informa o Ministério do Desenvolvimento Social em seu site (reproduzindo conclusões de estudo realizado pela economista Rosa Maria Marques, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Se isso estimula ou inibe o desejável caminhar daquelas pessoas em direção a eventuais portas de saída do programa, para que cuidem das próprias vidas com desenvoltura menos condicionada ao amparo governamental, não se sabe - como também não se sabe até que ponto a incursão da clientela do Bolsa Família pelas praias do consumo poderá contribuir para fabricantes de eletrodomésticos e móveis aumentarem a produção e empregarem mais gente de modo significativo, como seria do interesse geral. Em qualquer hipótese, pode estar nascendo aí uma nova questão para complicar a vida de quem pretenda compreender, ou deva explicar, o estado presente e os possíveis rumos da distribuição de renda no Brasil. O aumento do salário mínimo, de R$ 380 para R$ 415, a partir deste mês, e as regras de sua atualização para os próximos anos, combinadas entre o governo e sindicatos no ano passado, acrescentam outras variáveis a um quadro de indagações crescentes.

Alguns avanços já são melhor mensurados e entendidos. Estudo realizado por economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD concluiu que, sim, programas de transferência de renda conduzidos no Brasil, México e Chile têm impacto positivo na redução da desigualdade, como se viu entre meados dos anos 1990 e meados dos anos 2000. Os programas brasileiro (Bolsa Família) e mexicano apresentaram os resultados mais expressivos em avaliações feitas pelo critério do índice de Gini (no qual 0 corresponde a completa igualdade e 1 a completa desigualda-de). Enquanto a redução na desigualdade alcançada pelo Chile Solidário alterou o índice em apenas 0,1 ponto, no México e no Brasil a desigualdade caiu 2,7 pontos, pela mesma medida. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD, do IBGE, correm na mesma direção. Em 2004, com 0,5717, o índice desceu ao nível mais baixo desde 1992 (0,5832) e continuou a cair em 2005 e 2006, quando chegou a 0,5620.

Certo é que próximas pesquisas de orçamentos familiares (o IBGE já pensa na sua, depois da que realizou em 2002/2003, além da ampliação, já prevista, da PNAD para quesitos de consumo) devem ganhar importância histórica: serão as primeiras a mostrar o alcance de uma virada sem precedentes nos hábitos de consumo dos brasileiros, essa da qual todos os dias - principalmente desde o ano passado, mas com origens já insinuadas a partir de 2004 - capta-se um novo sinal, das vendas de carros às de eletrodomésticos, das cestas de alimentação que passam a incluir ítens antes considerados supérfluos às compras de material de construção muitas vezes adiadas.

São mudanças, essas que se desvendam com clareza crescente, que, pode-se imaginar, também desenham o perfil de um brasileiro consciente de possibilidades, em matéria de bem-estar, que tendem a se tornar exigências difíceis de ignorar na formulação de políticas de governo, principalmente aquelas esperadas por quem, nos estratos inferiores da escala de rendas, provou de melhorias antes inimagináveis - desde as menores rendas que se complementam com o Bolsa Família até bem mais em cima, passando pelo salário-mínimo e suas vizinhanças (embora a partir daí algumas análises encontrem uma certa contenção de movimento).

Ao que tudo indica, dizem analistas também - o que pode contribuir para um certo sossego de governantes e políticos em geral - este é um ciclo de aumento de renda e de consumo de forte sustentabilidade, feitas as ressalvas de praxe quanto a eventuais adversidades infladas em paragens externas, fora dos controles nacionais. Tem-se, então, uma atmosfera de progresso que, junto com o natural espraiar da sensação de maior bem-estar, tende a sugerir, como contrapartida menos agradável ao paladar de quem deve satisfações ao eleitorado, mais e mais questões a respeito da qualidade da distribuição social desse benefício de natureza entre material e psicológica.

Algumas premissas já estão colocadas, e são de indiscutível aplicação universal. Será conveniente lembrar, por exemplo, que se os tempos são de bonança neste Brasil de indicadores econômicos cintilantes é porque, em larga medida, mais pessoas estão podendo fazer escolhas que antes não podiam fazer. Quando se compra - fazendo girar a roda do consumo que hoje move com força a economia brasileira - escolhe-se. Subindo a renda, sobem junto as possibilidades de escolha. A começar pelos beneficiários do Bolsa Família. É intuitivo.

Outro traço típico do regime de mercados livres (ainda que imperfeitos) é a desigualdade de renda (entre outras). Pode-se diminui-la, mas não extingüi-la. Porque ela é, basicamente, a conseqüência da distribuição desigual de capacidades de produzir. Por outro ângulo: se o sistema é fundamentado na liberdade de contratos, está criado o ambiente para a multiplicação de trocas voluntárias e a ampliação da divisão do trabalho. A propriedade individual dos bens intercambiados e dos fatores que os produzem completam as condições necessárias para a existência do sistema capitalista. "É fácil compreender que esse sistema deve incessantemente gerar distribuições desiguais de renda e riqueza e também que essas distribuições não poderão ser enquadradas em nenhum padrão duradouro" (Anthony de Jasay, no ensaio "The Capitalism They Hate: The Inequality Machine" - The Library of Economics and Liberty).

Para onde vai a distribuição de renda no Brasil, em meio a essas inelutáveis incertezas? O que poderá (ainda) vir pelas mãos do governo? E, particularmente, pelas decisões de empresas e escolhas das pessoas, em diferentes mercados, inclusive o de trabalho?

A inflação, que alimentava e era alimentada por desigualdades sem conta - abstração feita da despreocupada contabilidade de quem podia se defender com aplicações financeiras - anda de crista baixa já há bom tempo, tão mansa que desqualifica até as mais otimistas projeções, como acaba de fazer o índice de preços ao consumidor semanal, da Fundação Getúlio Vargas, que ficou num desconcertante zero no fechamento de fevereiro, fazendo pouco dos analistas, que previam aumento entre 0,05 e 0,15%. Restaram outras razões, que talvez se pudessem chamar de "estruturais", para explicar os movimentos de preços e aquelas, de conjuntura nacional ou estrangeira, que estão aí, de certo modo, para justificar a existência de bancos centrais, inclusive o brasileiro, e suas políticas monetárias.

Mais importante, contudo, nesta hora brasileira de consumo expandido em ritmo que faz inveja até a americano, é que: (1) a euforia compradora não está contribuindo com força proporcional para engordar os índices de preços; (2) isso sugere que não há pressões exacerbadas sobre a oferta, nem expectativas de que venham a existir; (3) o que provavelmente tem a ver com o ritmo também acelerado dos investimentos, internos e vindos de fora; (4) que são feitos, evidentemente, de olhos postos no futuro, o que significa confiança na continuidade do crescimento da demanda interna (o real valorizado só não tem graça para exportadores, mas também não faltam aqueles que conseguem vender lá fora, do mesmo jeito).

O brasileiro, individualmente, compartilha desse otimismo já há algum tempo, como se vê nos resultados da pesquisa realizada pelo instituto Gallup em 130 países, divulgados em 2006. Numa escala de 0 a 10, o nível de satisfação pela vida, ou "felicidade", declarado pelos brasileiros foi de 6,61. Os dinamarqueses seriam os mais "felizes" do mundo, com 7,98, acima dos americanos (7,09). O Chad apareceu em último lugar, com 3,36. Na projeção de "felicidade" esperada para 2011, a situação se inverte: os brasileiros são os campeões do otimismo, com 8,24, e os dinamarqueses ficam em segundo lugar, com 7,86.

Uma explicação para esse elevado estado de ânimo pode estar nos números da PNAD-2006, a mais recente, processados pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas - CSP/FGV. No período 2005/2006, a variação acumulada da renda domiciliar per capita, para todas as faixas, excluindo o crescimento populacional, chegou a opulentos 16,4%. Para os 50% mais pobres, o aumento foi ainda maior, de 21,6%. Para os 40% médios, 15,9%. Para os 10% mais ricos, 15,3%. Aqueles 16,4% são quase 4,3 vezes maiores que o PIB per capita acumulado no período, de 3,84%.

Persistem, contudo, espaços cinzentos nessa história de pobreza, transferências de renda e desigualdades - e, por extensão, na própria trajetória do PIB brasileiro, que é, afinal, o grande bolo que se reparte assim ou assado. Debruçado sobre essas questões há anos, com luzes de competência que o qualificam como um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Marcelo Côrtes Neri, chefe do CPS/FGV, continua procurando respostas para esta pergunta: O Brasil está mais para um perfil chinês ou haitiano?

Pelo lado que se poderia chamar de "chinês", tem-se a variação de renda informada pela PNAD, que incorpora os mesmos 8% de crescimento anual dos tempos do "milagre". Pelo lado "haitiano", o que impressiona é o PIB de expansão diminuta.

Como se explica essa discrepância entre dois indicadores "gêmeos", que deveriam apontar praticamente na mesma direção? Neri imagina possibilidades: ou a economia brasileira está crescendo mais do que o PIB indica, ou a pobreza não está caindo tanto quanto a PNAD informa: de 35,2% no princípio dos anos 1990, a presença da miséria no Brasil oscilou em torno da média de 28% da população até 2003 e começou a cair significativamente a partir de 2004 (25,38%), com 22,77% em 2005 e 19,31% em 2006.

Talvez se pudesse explicar a disparidade pelas diferenças de itens que entram na PNAD, fortemente concentrada em salários (embora as perguntas feitas às pessoas pesquisadas alcancem diversas fontes possíveis de renda) e aqueles exclusivos do PIB (como lucros retidos e gastos de consumo não associados à disponibilidade de renda). "O fato é que uma série de indicadores, como emprego, a valorização do Ibovespa, a expansão do crédito, as vendas no varejo, mostram um país não haitiano", diz Neri, e, assim, conferem aos números da PNAD um significado que seria mais próximo da realidade hoje vivida. Ele recomenda, contudo, que não se fechem raciocínios nessa direção, ainda que 2007 e mesmo 2008 devam apresentar, ao que tudo indica, cenários também bastante positivos.

João Sicsú, diretor de estudos macroeconômicos do Ipea e professor do Instituto de Economia da UFRJ, vai aos números do PIB e vê traços importantes de desigualdade irresolvida, e crescente. Em 1995, argumenta, o total pago na forma de salários como proporção do PIB era superior a 35% e as rendas do capital ficavam um pouco acima de 31%. Em 2005 a situação se inverte: os salários comparecem com 31/% e as rendas do capital saltam para quase 36%.

"Outra forma de se ver a desigualdade de participação dos salários e do capital no PIB", diz Sicsú, "é pela distribuição de gastos governamentais, com o pagamento de juros disparado na frente de educação e saúde, por exemplo". Quando o PIB cresce, é verdade, os salários aumentam sua participação. "A questão é que os lucros e os juros têm aumentado sua participação de forma mais rápida, por causa da concentração da produção, dos ganhos do sistema financeiro". Sicsú só vê uma saída: uma política firme e eficaz de participação dos trabalhadores nos lucros, sem a timidez implícita na legislação hoje existente.

Se não for assim, acredita o diretor do Ipea, a desigualdade de renda pode até estar diminuindo, como de fato está, mas isso acontece de um modo desconjuntado: os que estão em baixo sobem (o que Sicsú, naturalmente, acha bom), mas os que estão em cima continuam parados, ou quase isso. E, então, cai a participação dos salários na composição do PIB.

Faltaria também, segundo Sicsú, dar um jeito melhor em outra distribuição, a da força de trabalho ela mesma, de maneira que pudesse ser maior a presença de profissionais de saúde e educação. Aumentando-se assim a oferta desses trabalhadores à disposição da sociedade, também se iria dando pavimentação consistente aos caminhos para uma distribuição de oportunidades mais equânime.

Neri examina a renda do trabalho (renda familiar per capita média) com a atenção dirigida para a recuperação havida de 2003 para cá, depois da forte redução iniciada em 1997.Conforme os números da PNAD, houve um aumento de R$ 312 ,85 em 2003 para R$ 372,07 em 2006, ou seja, um crescimento de 19,2%, no total, e de 9,1% só no último ano, descontado o crescimento populacional. Com este detalhe: já se recuperaram as perdas, e agora o acréscimo é efetivo. Segundo Neri, está aí delineada, e incluindo 2007, uma trajetória de crescimento sustentável da renda, considerado o conjunto de indicadores atuais. O emprego não fica atrás, com a criação provável de 10 milhões de postos de trabalho em quatro anos, até 2007.

Neri recomenda que não se esqueça da presença dos que trabalham por conta-própria, um contingente importante, cujo perfil meio híbrido, com um pé na massa de salários e outro no capital, pode tirar clareza ou mesmo substância às análises de composição estrutural do PIB. Mais importante, porém, é que se deve a eles, particularmente, o forte crescimento no consumo de "bens de produtores", como computador, internet e celular. Neri fala em "signos trabalhistas", como esses, mais o número crescente de empregos com carteira assinada e o acesso a cursos superiores, que funcionam como indicadores antecedentes de mudanças importantes. Tudo, ainda, "em níveis bastante baixos, uma foto ruim, mas já diferente que a de três ou quatro anos atrás". Enfim, "são símbolos de uma sociedade em que pode estar havendo uma melhoria da capacidade de trabalho".

Uma conclusão plausível parece ser a de que ainda falta, na discussão dos rumos das relações entre crescimento e renda - e consumo, por extensão - uma base mais clara de inter-relações de dados e seus desdobramentos para o conjunto da economia. Compreende-se. Fatos novos, de conexão nem sempre óbvia, estão se acumulando rapidamente, num espaço de tempo relativamente curto. Além disso, apesar da boa qualidade dos indicadores fundamentais, ainda é preciso resolver questões não menos essenciais, como a da previdência social, enquistada no cerne de desequilíbrios fiscais pendentes de equacionamento duradouro.

Por isso mesmo, o aumento do salário mínimo de R$ 380 para R$ 415 repõe na mesa uma antiga pergunta: Qual é o impacto da elevação desse piso de remuneração sobre a distribuição de renda, a redução da pobreza extrema e as contas públicas, tendo-se em mente que aposentadorias também tomam o mínimo como piso?

O economista Fábio Giambiagi admite que o aumento do salário mínimo alavanca a demanda. "Ao mesmo tempo, porém, aumenta a despesa da previdência social em bases permanentes, o que pode ser absorvido no curto prazo, num contexto de crescimento, mas depois a trajetória da curva é jogada sistematicamente para cima, no sentido de que uma das variáveis se torna rígida."

O impasse tem saída, segundo Giambiagi, sem que se desrespeite o combinado entre o governo e sindicatos, de reajuste do mínimo pelo crescimento do PIB defasado de dois anos . Em síntese, ele sugere que depois de 2011, quando se deverá definir a regra para 2012/2023, se adote um reajuste moderado para o mínimo, que seja diluído ao longo de quatro anos, de maneira que, em 2015, a relação teto de aposentadoria/piso caia, por exemplo, para 6 (em 2007, foi de 7,6). Daí para a frente, o mínimo seria desvinculado do piso, seus aumentos reais deixariam de afetar a previdência e todas as aposentadorias aumentariam em função da inflação do ano anterior, "como acontece em todos os países".

Giambiagi recusa o rótulo de que, ao defender suas idéias de revisão das regras de aposentadoria, despreza o salário mínimo como instrumento de distribuição de renda. "Isso soa como politicamente incorreto. A expressão técnica é que o mínimo foi perdendo eficácia como instrumento de redistribuição de renda em favor das camadas mais pobres da população." Na verdade, "o mínimo já não é mínimo", porque muita gente ganha menos que o suposto piso, que se afasta sempre mais, e para cima, das remunerações de fato inferiores (empurrado por crescimento real de quase 100% entre 1995 e 2007).

Em artigo recente no blog "Crítica Econômica", a economista Isabela Nogueira confronta as posições de Giambiagi. "De fato, poucas pessoas dentre as que recebem salário mínimo estão entre os 10% mais pobres", admite. "Mas quando consideramos os rendimentos do trabalho, verificamos que parte dos que recebem o mínimo estão nos níveis médios e baixos da distribuição de renda." Em seu entender, "isso significa que o combate à pobreza, no curto prazo, não pode prescindir de políticas de transferência de recursos diretamente às mãos das famílias pobres." Ao mesmo tempo, porém, "pode haver alguma relação entre a melhora na desigualdade e o incremento do salário real, nos últimos anos, que merece ser analisada."

Isabela não é explícita, mas deixa entrever, no fecho de seu artigo, que, naquilo que se refere às aposentadorias e relações com o mínimo, não há porque induzir mudanças.

À medida que 2010 se aproxima, com sua carga de disputas eleitorais, mais acalorada tende a se tornar a discussão de tantas questões relacionadas à distribuição de renda - com o presumível estímulo adicional, agora, do apetite de muita gente que provou do bolo e está adorando seu sabor.
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Cyro Andrade
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quarta-feira, 12 de março de 2008

CORPOS DE CONSUMO

O modelo ideal de homem e mulher, em vez de elevar a auto-estima, só faz com que esta diminua e seja substituída por mal-estar
Desde que começamos a trabalhar com mulheres, a pergunta básica que nunca deixou de ser a mesma é sobre o tratamento da mídia a respeito do corpo feminino. Agora, contudo, devido ao avanço da tecnologia, a coisa está se tornando mais grave. O consumo não é mais sobre a forma física da mulher, que é sempre jovem, magra e bela, mas sobre seus laços mais profundos. Sites americanos e brasileiros apresentam o "pacote de cirurgia pós-parto": lipoaspiração para retirada das gordurinhas extras, correção da vulva e dos seios, tudo para consertar o "estrago" que a gravidez faz no corpo da mulher. Médicos mais sensatos recomendam alguns meses de espera para que a própria fisiologia se encarregue de fazer boa parte do trabalho, mas outros vendem a idéia de "aproveitar a oportunidade do parto" e cuidar de recuperar rapidamente a auto-estima supostamente perdida com a "deformação" provocada pelo feto. O vínculo amoroso imprescindível com o bebê, a intimidade da amamentação, a importância dos primeiros dias e semanas após o parto para incluir o bebê na família deixaram de ser a prioridade? Sim. Para a sociedade de consumo, nem o corpo da mulher nem o da criança nem o do homem são prioridades. A prioridade única e exclusiva é o lucro. O lucro vale mais do que a vida humana. No depoimento de algumas mulheres motivadas a comprar o "pacote", os argumentos giravam em torno de garantir a permanência do desejo do marido, preservar a boa imagem no ambiente de trabalho, destacar a importância do corpo perfeito. E agora perguntamos: vale a pena ficar com um companheiro que só nos quer se estivermos "com tudo em cima"? O consumo também engole os valores mais profundos do amor. Em conversa com uma moça na faixa dos 20 anos, vimos a insegurança de ir para a cama com o namorado sem estar perfeitamente depilada. Este, por sua vez, também depila os pêlos do peito: não é à toa que cresce o nicho das clínicas de depilação. Será que o desejo ficou tão vulnerável à estética, tão volátil, que desaparece sem os devidos cremes, as horas nas academias e os tratamentos de beleza para corrigir as imperfeições? É isso que se faz com a juventude. Ao invés de aumentar a auto-estima, o "modelo perfeito" de homens e mulheres só faz com que esta diminua e seja substituída por um mal-estar subjacente que, desde a adolescência, persegue homens e mulheres a respeito de sua imagem até o fim da vida. Porque é impossível para o ser humano médio competir com os padrões de beleza que vê nas revistas, nos filmes e nas novelas de televisão. O fato se agrava cada vez mais à medida que a mulher vai amadurecendo. Na maioria dos países desenvolvidos, os anos de vida útil aumentam cada vez mais, e cada vez mais se faz uma publicidade para a beleza amadurecida. No Brasil, as companhias de cosméticos não conseguem furar a barreira do preconceito da eterna juventude, a fim de criar uma "juventude" interna que não se desgasta com o correr dos anos. Em meio a intensas dores e desconforto de uma plástica de abdome para tirar a barriguinha que ficou mal na foto, uma mulher de meia-idade pensa na calça jeans e nos vestidos de malha que conseguirá usar depois de atravessar a via-crúcis do pós-cirúrgico e das várias limitações à sua mobilidade nas primeiras semanas. Qual o verdadeiro sentido desse sofrimento auto-imposto? O amor, o desejo, a ternura e a cumplicidade podem existir entre pessoas com corpos imperfeitos. Ao contrário do que a mídia apregoa, quanto mais maduros homens e mulheres, mais profundas se tornam suas relações, mais independentes de estereótipos e mais prazerosas, de um prazer inabalável, se não fosse o bombardeio midiático de que a velhice é uma doença, e não uma plenitude. Para onde nos leva o capital/dinheiro? São inaceitáveis as marcas (e os marcos) do tempo no corpo? É imoral envelhecer? O pior é que não é só o corpo que o capital/dinheiro destrói. Ele destrói também a capacidade de homens e mulheres de aprofundarem a sua relação com a realidade. Destruir o corpo real e substituí-lo por um corpo de consumo é também substituir a "realidade real" por uma "realidade de consumo", que tende a destruir a própria espécie humana (a partir do desequilíbrio climático pelo excesso de consumo).
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Rose Marie Muraro
Maria Tereza Maldonado
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PASSAR FOME PELOS BIOCOMBUSTÍVEIS?


O capital, logo que regressa à forma de dinheiro, flui para onde consegue obter mais lucro. Como é sabido ele ignora completamente as necessidades humanas. A produção de minas antipessoais vale mais que a produção de pastéis de nata? Então avance-se para a produção de minas. É assim que se estabelecem os preços de produção e a taxa média de lucro, como Marx demonstrou no 3º volume de "O Capital". Assim se reestruturam continuamente os ramos e a superfície do mercado; produtores de tubos transformam-se em empresas turísticas e grandes cervejarias entram no negócio farmacêutico. Sob as condições do esgotamento da acumulação real na 3ª revolução industrial, o movimento da taxa média de lucro é adicionalmente distorcido por uma economia de bolhas financeiras prenhe de crises. Sectores de produção e infra-estruturas de importância vital são desmontados ou desactivados.
Este desenvolvimento destrutivo há muito tempo que atingiu o plano elementar da alimentação humana. Com a globalização a produção de alimentos foi intensivamente capitalizada, como nunca antes fora. Assim ela está cada vez mais submetida ao processo em que se estabelece a taxa média de lucro. Nos supermercados alemães pode-se comprar em Janeiro espargos do Peru ou de África a preços elevados, enquanto nos países produtores as pessoas são privadas das bases da alimentação e passam fome. Simultaneamente a indústria global de alimentação transformou-se numa cozinha tóxica; os escândalos no sector alimentar sucedem-se. As classes médias ainda com poder de compra reagem a isto com uma ideologia do biológico. Os "outros" podem passar fome, mas eles querem uma alimentação saudável. O capital virou-se prontamente para o agrobusiness biológico; o que apenas tem por consequência que cada vez é menos "biológico" por dentro o que se apresenta como "biológico" por fora.
Na realidade aproxima-se sorrateiramente uma crise de bens alimentares de âmbito mundial. Segundo dados da FAO a superfície agrícola está em redução nos últimos anos; muitos terrenos estão exaustos com excesso de adubos e culturas intensivas, ou, na conjuntura de deficit elevado, são transformados em superfícies industriais e áreas turísticas com campos de golfe, ou acimentados pela especulação imobiliária. Os preços dos produtos básicos, como centeio, cevada, trigo, aveia e milho, explodem e com eles os preços das rações e produtos para animais. Uma vez que os preços da energia também estão em escalada e a produção de alimentos com capital intensivo está ligada a alto consumo de energia, o sector da alimentação tornou-se uma força promotora da inflação.
Mas não é só isso. À medida que a cultura de combustão capitalista esgota as reservas de energias fósseis a produção de biocombustíveis entra em concorrência com a produção de alimentos. Atestar um automóvel com etanol devora o consumo anual de cereais de um ser humano. Mas, ao apelo do lucro, a agro-indústria vira-se para as "energias renováveis", ainda com a auréola da "defesa do clima". No México já houve manifestações de massas contra a subida dos preços da farinha de milho, a principal base da alimentação. Também por cá há muito que a assistência médica de segunda classe vai de par com uma alimentação de segunda classe. Enquanto os rendimentos reais descem, sobem os preços dos produtos de fraco valor alimentar, antes baratos. Em breve talvez se imponha aos beneficiários do Hartz-IV a divisa "passar fome pelos biocombustíveis". A ideologia bio tem efeito bumerangue, porque não quer tocar nas relações capitalistas.

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Robert Kurz
Fonte: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz284.htm
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terça-feira, 11 de março de 2008

FOME EM ABUNDÂNCIA


Não só indivíduos, mas também Estados e sistemas sociais tendem a se iludir. O recorde mundial, nesse ponto, foi estabelecido pelo sistema produtor de mercadorias da modernidade, que se tem como o apogeu insuperável da história humana. Não há dúvida de que o desenvolvimento técnico de hoje é inaudito, mas mesmo as maiores -ou mais absurdas- descobertas técnicas não refletem o bem-estar real das pessoas, e isso tanto hoje em dia quanto no tempo das pirâmides. Há um padrão bem simples para poder avaliar a verdadeira qualidade de uma época: o panorama da alimentação. Comidas e bebidas dão a exata medida do cotidiano das pessoas. Nesse assunto, uma cultura revela a sua capacidade mais elementar de satisfazer suas necessidades. A modernidade, é claro, também se vê no auge do progresso quando se trata de alimentação: em todas as sociedades anteriores, assim diz a lenda, as pessoas teriam vivido de cascas emboloradas de pão, à beira da fome constante; apenas a miraculosa economia de mercado teria solucionado o problema da provisão de alimentos em abundância e de ótima qualidade.Esse quadro faz pouco da realidade, pois exatamente o contrário é verdadeiro. No fim dos anos 70, o historiador da economia Immanuel Wallerstein e o seu grupo apresentaram no Fernand Braudel Center for the Study of Economics (Centro de Estudos Econômicos Fernand Braudel) alguns estudos sobre a história da produção agrária e da alimentação, cuja principal tese é: "O bem-estar do sistema mundial e do conjunto da força de trabalho diminui a longo prazo; ao contrário de uma suposição muito difundida, ele não cresce". Tal afirmação, que desmente a ideologia de mercado, é exaustivamente documentada. Wallerstein não queria, é claro, glorificar as formas pré-modernas de dominação, como fazem há 200 anos os ideólogos conservadores e românticos.Em todos os tempos, as pessoas humildes pagaram caro as maravilhas de civilizações repressivas. Como a produtividade era comparativamente baixa e muitos recursos eram sugados pelos exércitos ou para a construção de pirâmides, templos e outras metas estatais, o bem-estar nas culturas antigas era quase sempre inferior (e a alimentação, pior) do que nas comunidades pré-estatais. Se, por um lado, a civilização moderna elevou a produtividade para além de todos os limites imagináveis, por outro, submeteu a uma alimentação miserável ou mesmo aos tormentos da fome um número de pessoas sem precedentes, tanto em termos absolutos quanto relativos.Tal afirmação só parece totalmente inacreditável à consciência dominante porque a visão oficial limita-se a três parâmetros: primeiro, ao curto intervalo de relativa prosperidade depois da Segunda Guerra Mundial; segundo, aos poucos países industrializados do Ocidente; e, terceiro, à tênue camada social dos respectivos vencedores da economia de mercado. Mas, se observarmos a história dos países e dos grupos sociais desde o século 16, veremos facilmente que a era moderna como um todo provocou o maior surto de escassez de alimentos jamais visto, superando em muito os próprios déspotas orientais. É evidente que a economia de mercado está mais uma vez disposta a agravar dramaticamente, no final do século 20, a contenção de alimentos e abandonar à míngua, de forma constante ou temporária, quase 6 bilhões de pessoas.Isso não é, absolutamente, um exagero. A melhora da provisão mundial de alimentos, nos anos 60 e 70, foi passageira; desde os anos 80, a fome e a desnutrição se expandem. E não somente o continente africano fornece as imagens aterradoras de crianças em pele e osso e de lactentes que sugam em vão os seios descarnados de suas mães. O mundo do mercado acostumou-se com essas cenas, que agora já deixaram de nos chocar. Mas o fantasma da fome reaparece onde parecia estar banido para sempre.Mineiros e suas famílias da região da Ucrânia ou da Sibéria, aposentados de Moscou, crianças de rua em todo Leste europeu passam tanta fome quanto boa parte da população da América Latina e do sul da Ásia. Segundo um relatório da Unicef, a cada ano morrem mais de 7 milhões de crianças, vítimas da subnutrição. E o maior "modelo de sucesso" neoliberal consiste na universalização da cozinha dos pobres.A fome regressou até mesmo nos centros industriais do Ocidente. Ainda que pelo menos um membro da família tenha emprego, 30 milhões de norte-americanos encontram-se hoje, em decorrência dos literais "salários de fome", numa "situação precária de alimentação"; dentre eles, 26 milhões dependem mensalmente de refeições públicas ou doações privadas, mais de 4 milhões de adultos passam fome de modo esporádico ou diário, 11 milhões de crianças estão subnutridas e em quase 1 milhão de lares não há, muitas vezes, o que comer durante dias. Não se trata -fique bem claro- de propaganda de terror, mas de dados do próprio Ministério da Agricultura dos EUA ou de organizações beneficentes como Second Harvest. O pretenso capitalismo "social" alemão também permite, segundo dados confiáveis da Associação Alemã para Defesa da Criança, que as famílias pobres vejam aumentar cada vez mais o índice de mortalidade ou doenças em seus filhos, graças à alimentação deficiente. Alguns professores de bairros com alta incidência de desemprego relatam que, ao final do mês, não é raro que crianças da pré-escola desmaiem por falta de comida, já que os pais não lhes podem pagar o café da manhã ou o almoço. Em muitas escolas, tornou-se comum estudantes famintos mendigarem um pãozinho a seus colegas mais remediados.Todas essas atrocidades não remontam ao fato de uma taxa de natalidade muito elevada ter conduzido a um "excesso de população" que, com as atuais possibilidades técnicas, é incapaz de ser alimentada e deve de algum modo ser neutralizada, como prognosticara no início do século 19 o famigerado ideólogo liberal Thomas Malthus. Ao contrário, do século 18 até hoje as forças produtivas cresceram com velocidade infinitamente maior do que a população mundial. Caso se tratasse da potência produtiva, o dobro da população atual poderia facilmente ser alimentada com folga e abundância. O limite social da produção e da distribuição de alimentos não é determinado por rendimentos agrícolas insuficientes em relação ao contingente populacional, mas pela forma econômica do moderno sistema produtor de mercadorias.A lógica da rentabilidade empresarial exige uma restrição irracional de recursos, que vem à luz de forma mais drástica no plano elementar da alimentação. Em princípio, as pessoas só têm acesso aos alimentos com a ressalva de que a sua força de trabalho seja usada de forma rentável. Se não preencher esse requisito, no caso da produtividade "muito alta" tornar supérflua sua força de trabalho, elas são mantidas a rações de fome, apesar de a capacidade de produção de alimentos ter crescido.Decisiva não é a necessidade vital, mas o maior preço a ser alcançado. O caráter absurdo desse requisito fica bem claro na produção agrária, pois nela o resultado não depende só de quanto capital foi investido. Se para todas sociedades pré-modernas uma colheita excepcional era celebrada com júbilo e garantia a todos pelo menos um excedente temporário, para o cálculo empresarial do "agribusiness" ela representa uma fatalidade, pois, com o "excedente", os preços são reduzidos. Faz parte do cotidiano dos negócios mercantis, em caso de colheitas recordes, queimar em massa produtos agrícolas ou desnaturá-los por meio de processos industriais, enquanto bem ao lado as pessoas morrem de fome.A mesma racionalidade empresarial acarreta não apenas a fome em massa, mas também degrada a qualidade dos alimentos a níveis incrivelmente baixos. Nem a "cultura da embalagem" é capaz de nos iludir, com todo seu colorido e sua higiene superficial. Mesmo aqueles que, pelas aparências, têm bastante o que comer, sofrem com a falta de nutrientes vitais. De fato, a lógica da redução de custos faz com que a indústria alimentícia retire ingredientes básicos de seus produtos externamente tão vistosos, a fim de torná-los rentáveis. "Fast food" e comidas instantâneas simulam uma qualidade que não possuem. Um pacote de "sopa de galinha" da empresa alemã Knorr, com rendimento de 4 pratos, contém somente 2 gramas de "galinha desidratada", em bolotinhas.Dessa maneira, produz-se uma sensação permanente de fome, que enseja o consumo de mais alimentos com baixo teor de proteínas. O resultado são pessoas doentes, inchadas, que não vivem melhor do que os esfaimados. Da mesma maneira perversa que o mercado produz o fenômeno da fome, é ele próprio que reage a essa situação, com sua indústria suplementar de "complementos alimentares", na forma de vitaminas, minerais etc., que deveriam estar contidos numa alimentação balanceada.As grandes empresas de produtos alimentícios fazem de tudo para maximizar os lucros e iludir os consumidores. Camarões congelados, tão rosáceos, muitas vezes não passam de carne de peixe de segunda, tingida com colorante e comprimida na forma de camarões. Na Itália, achou-se material cancerígeno no macarrão, proveniente da embalagem. Nos transportes de alimentos com refrigeração, foi constatada a temperatura de 25ºC, em vez dos 7ºC permitidos, e muitas vezes os compartimentos não são limpos depois de desembarcados os produtos. A metade dos frangos que é comprada na União Européia está infectada por bactérias. Entre 1985 e 1992, os casos de salmonela quintuplicaram na Alemanha.Na soma geral, cresce o número de doenças e infecções causadas por alimentos industrializados. A malfadada doença da "vaca louca", transmissível para o homem, surgiu com a pulverização da forragem do gado com restos de ovelhas contaminadas. Tudo isso é economia de mercado.Mas, mesmo quando os ingredientes da alimentação não são diretamente envenenados ou nocivos à saúde, sua qualidade continuamente cai de patamar e seu sabor é eliminado. A começar pela redução da variedade dos sabores, pois a distribuição continental e transcontinental permite apenas um espectro bem diminuto de produtos básicos, como que cultivados segundo as "normas de acondicionamento". Milhares de frutas e legumes, centenas de espécies de animais comestíveis são deixados de lado, pois, do ponto de vista do cálculo abstrato dos custos, eles são "supérfluos". Assim, a economia de mercado desperdiça o legado de séculos de cultura agrária. Com aprovação legal, cada vez mais matéria-prima agrícola é decomposta por novas tecnologias, para então ser enriquecida, tingida e conservada industrialmente. A cerveja pode conter cascos de animais pulverizados e o chocolate, sangue desidratado. Com "sabores" sintéticos os produtos têm custo muito menor do que com frutas verdadeiras: biomassas desnaturadas e insípidas são "injetadas" com substâncias aromáticas (assim, a estrutura molecular correspondente a "sabor de galinha" é quase idêntica ao de "morango").No Japão, cientistas criaram até um "hambúrguer-toalete" que contém como ingredientes papel higiênico e excrementos, submetidos a uma temperatura extremamente elevada e acrescidos de proteínas de soja, obtendo como produto um granulado que há de servir como substituto para a carne. Bom apetite! "Dize-me o que comes e dir-te-ei quem és": nunca esse adágio foi tão atual como nos tempos da produção liberal e globalizada de alimentos. Mas tudo é relativo, retrucaria a ideologia pós-moderna. E por que o homem capitalista não seria privado também de seu paladar? Em testes numa escola alemã, as crianças foram incapazes de identificar o sabor "amargo".Pouco consola o fato de a própria elite funcional tomar parte na miséria dos hábitos alimentares. Foram os próprios administradores pós-modernos que inventaram o hábito de comer andando ("food on the run") e comer no carro ("food on the ride"). E eles ingerem substâncias que um camponês da Idade Média não daria sequer aos seus porcos. Quem ainda duvida que a economia de mercado nos conduziu ao glorioso "fim da história"?
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Robert Kurz
Fonte: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz24.htm
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A GRANDE QUEIMA DE DINHEIRO

Pacotes de salvamento para bancos em situação catastrófica e caça aos criminosos fiscais
Com a ameaça de insolvência do Düsseldorfer IKB, um banco de médias dimensões, a crise financeira em gestação atingiu uma nova dimensão. Simultaneamente a polícia de investigação fiscal, com a ajuda dos serviços secretos, lança uma grande ofensiva contra aplicações financeiras dúbias no Liechtenstein, que fogem ao fisco. Haverá aqui alguma relação? Na Alemanha Federal é sobretudo o sistema bancário de direito público que está em maus lençóis. Com efeito, no caso do IKB trata-se de um banco privado cotado em bolsa que financia pequenas e médias empresas. No entanto, o maior accionista, com 38%, é a estatal Instituição de Crédito para a Reconstrução (Kreditanstalt für Wiederaufbau, KfW), uma relíquia dos tempos da fundação da antiga Alemanha Federal, e que pertence a 80% à Federação e a 20% ao Land (estado federado). Desde o Verão passado que há fogo sob o telhado do IKB, que fez mal as contas ao jogo com os créditos hipotecários dos Estados Unidos. Por consequência o KfW, presidido pela ex-perita financeira do SPD, Ingrid Matthäus-Meier, já teve de amanhar-lhe dois pacotes de salvamento que se orçaram em 6 mil milhões de euros. Agora chegou a hora do terceiro, na ordem dos 2 mil milhões de euros, com que o KfW já não consegue arcar.
Na semana passada as reuniões de crise eram umas a seguir às outras. Jochen Sanio, presidente da agência de fiscalização bancária, BaFin, tinha avisado que teria de fechar o IFK, com consequências imprevisíveis para a área financeira e para a economia real, se não houvesse entrada de dinheiro fresco. O ministro das finanças Steinbrück vê-se agora obrigado a apagar o fogo com dinheiros públicos, pois os bancos comerciais já não querem deitar mais dinheiro no saco sem fundo. Tudo funciona segundo o conhecido padrão de privatização dos ganhos e socialização das perdas. A dificuldade da situação está em que a insolvência do IKB ameaça desencadear uma reacção em cadeia que arrastaria consigo muitas pequenas empresas e todo o sistema de caixas de poupança da Renânia do Norte-Vestefália. Em seguida o fundo de garantia dos depósitos do sistema bancário teria de entrar com uma ajuda de mais de 20 mil milhões de euros, o que poderia conduzir a reacções de pânico.
Nos últimos meses já os bancos estatais SachsenLB e WestLB tiveram de ser mantidos à tona de água com milhares de milhões de euros vindos dos orçamentos estaduais. Agora também o BayernLB, cujo chefe anunciou precipitadamente a retirada, admitiu necessidades de amortização de 1,9 mil milhões de euros. É de perguntar por que é que foram precisamente os bancos públicos a especular tão drasticamente ao lado, sendo que os papéis de crédito malparado talvez estejam apenas mais bem escondidos nos grandes bancos privados. Como de costume, fala-se em falhas de gestão e falta de controlo. Mas as causas são mais profundas. Devido à garantia do Estado, os bancos públicos podiam oferecer créditos mais baratos para as pequenas empresas, a construção civil e a defesa do ambiente. Era para isso que estavam concebidos. Mas tudo isso acabou quando a burocracia da União Europeia em Bruxelas liquidou o guarda-chuva estatal em Julho de 2005, na senda das suas medidas neoliberais de desregulamentação. Para poderem manter as suas condições favoráveis, precisamente os bancos públicos e suas filiais como o IKB atiraram-se a negócios de risco com títulos, por intermédio de sociedades de investimento deslocalizadas. Agora as consequências dramáticas servem de pretexto para pôr em questão todo o papel do sistema bancário de direito público, que desde há muito não é visto com bons olhos pelos doutrinadores neoliberais.
Com isto, obviamente, acabou até ver a reciclagem do dinheiro das bolhas financeiras em determinados sectores da economia real. Já neste momento ninguém consegue deter a repercussão sobre a conjuntura e sobre o emprego. Os pacotes de salvamento consumiram a capacidade de financiamento necessária para que o KfW e o IKB pudessem dedicar-se às suas verdadeiras tarefas. Medidas de política monetária, como a redução da taxa directora de juros, já não chegam para suster a crise financeira. Agora regressa de novo, pela porta das traseiras, a responsabilidade pública pelo sistema financeiro debilitado; responsabilidade, contudo, não para este cumprir a sua incumbência no seio da economia real, mas para se passar à grande queima do dinheiro. É só uma questão de tempo até que o Estado seja chamado em socorro de outros sectores do sistema financeiro. Pelo caminho ficam os tão invocados serviços públicos de interesse geral, já anteriormente reduzidos a um funcionamento a lume brando. A caça a destacados criminosos fiscais, digna de um filme de acção, que acabou com a carreira do chefe dos correios, Zumwinkel, pode ser interpretada como uma fuga para a frente por parte do governo. Para estar à altura das mega-sobrecargas, o Estado deita mão a meios de excepção contra a fuga ao fisco. Simultaneamente, a título de manobra de diversão, sobe o tom do coro mediático contra os "défices morais" das elites económicas. No entanto, as causas dos problemas que alastram não residem na "ganância" subjectiva, nem na falha pessoal, como pretende o ressentimento, mas sim na crise do sistema capitalista. Obviamente que a comunidade do discurso ideológico disso nada quer saber.
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Robert Kurz
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